sábado, 23 de agosto de 2014

Humanização da Assistência de Enfermagem em Pediatria: Impacto no atendimento


A maioria das crianças que adoecem, ficam mais chorosas e agarradas aos pais. Se a sua patologia for tão grave a ponto de exigir uma hospitalização, seu quadro emocional tende a piorar em função de se encontrarem afastadas de sua casa, de familiares e, principalmente, pelos procedimentos médicos e de enfermagem aos quais estas serão submetidas. Na maior parte do tempo de hospitalização, a criança fica restringida ao leito, submetida à passividade, à passividade, cercadas de pessoas estranhas e para ela, más por trazerem a dor e o sofrimento. Dor esta representada por todas as agulhadas, cortes e outros procedimentos desagradáveis até mesmo para um adulto. É comum a ocorrência de mecanismos de regressão onde a criança retorna a uma fase anterior à de sua idade.

Como uma forma de defesa, pode ocorrer à recusa de alimentos sólidos, aceitando apenas papinhas e líquidos; uma diminuição do vocabulário; perda do controle de esfíncteres além de ficar muito assustada.

Neste cenário, a enfermagem precisa se inserir de maneira a tornar o mais agradável possível a estadia da criança no hospital. Gostaria de sensibilizar os profissionais da área de saúde para que consigam captar as reais necessidades das crianças, com a maior paciência possível, utilizando a humanização e a promoção da saúde como instrumento principal.

Para que o tratamento tenha êxito, num período menor de internação, é importante o estabelecimento de vínculo e confiança da criança com o profissional. Atitudes sinceras e verdadeiras, vendo a criança como um indivíduo que têm direitos e deveres, com certeza são fundamentais para o sucesso dessa assistência, que gostaria de atingir.

O conjunto enfermagem/pais/acompanhantes deve familiarizar a criança ao ambiente hospitalar. Ver a mãe/acompanhante como aliada no processo de reabilitação - explicando-lhes as rotinas e procedimentos que serão realizados e o porquê de cada um e que poderá doer ou demorar, mas que ela estará junto com a criança para dar força e coragem é importante. Principalmente, quando são previamente informados e conscientizados para que assumam a mesma conduta.

Devemos possibilitar à criança um espaço para que ela venha a expressar seus sentimentos a respeito das experiências traumáticas, assim como suas ansiedades, raiva e/ou hostilidade. Além disso, a doença pode trazer à criança sentimentos de culpa ou abandono, como se fosse um castigo por algo errado que ela cometeu (SEIBEL; SANCHEZ, 1992). Através de um relacionamento seguro e construtivo é possível uma atuação adequada da enfermagem, podendo ajudar a criança a lidar melhor com suas dificuldades.

Acreditamos que o comportamento do profissional às vezes se esfria e se torna conturbado diante de muito sofrimento (dor, morte, perda) e, também, por falta de recursos materiais e humanos que afetam a sua execução, mas, acima de tudo, está a vida humana, devendo existir o respeito ao paciente, nosso objetivo maior enquanto profissionais.

É preciso parar, refletir e buscar alternativas que visem a um melhor relacionamento entre o profissional e o cliente/usuário hospitalizado, interagindo com vistas a uma recuperação mais rápida de forma humanizada da promoção da saúde.

“A criança é um ser biopsicossocial em crescimento e em desenvolvimento e, como tal, deve ser atendida em toda a sua individualidade nas necessidades básicas de nutrição, educação, socialização e afetividade” (TOPOROVSKI, 1988 apud PEREIRA, 2000. p. 2). A cura das afecções da criança e o êxito do seu tratamento em um ambiente hospitalar não dependem exclusivamente do nível científico do pediatra. O trabalho da equipe de enfermagem é imprescindível.

Neste trabalho, pretendemos realizar uma abordagem sobre o comportamento das crianças hospitalizadas e as crises com as quais se deparam e, ainda, como podemos, enquanto profissionais da área, tentar amenizar este desconforto da criança.

2. MATERIAL E MÉTODOS

O hospital estudado é parte integrante da rede pública de saúde da Secretaria de Saúde do DF. Ele possui todas as unidades integrantes da emergência (Pronto Socorro Infantil, Pronto Socorro Adulto, Pronto Socorro de Ginecologia). O referido hospital foi selecionado para participar da pesquisa de maneira intencional.

O quadro de servidores é vasto é o seu funcionamento é ininterrupto (turnos manhã, tarde e noite).

Para o desenvolvimento desse trabalho foram utilizados estudos descritivos por meio de coleta de dados em livros, periódicos, teses e demais literaturas acerca do tema humanização e promoção de saúde da assistência de enfermagem em unidade pediátrica.

O levantamento dos dados foi realizado através de pesquisa em: bibliotecas, entidades de classe, banco de dados e internet.

Após esse levantamento foi realizada uma análise e síntese do material, através de uma revisão bibliográfica, onde foram seguidos os seguintes passos: pesquisa bibliográfica, leitura informativa e exploratória, fichamento da bibliografia, leitura seletiva, reflexiva e interpretativa do material pesquisado e usado com subsídio para a elaboração do trabalho.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

É importante salientarmos que o estado emocional da criança depende da qualidade da relação estabelecida com a equipe médica e a de enfermagem, do tipo de organização da unidade e de seu estado psíquico prévio à hospitalização.

Entretanto, mesmo em situações onde as condições de internação são favoráveis, há pacientes que necessitam de assistência psicológica para que seqüelas emocionais sejam evitadas ou pelos menos minimizadas.

A presença da mãe ao lado do filho é peça fundamental e de extrema importância para a criança hospitalizada, portanto, deve ser uma prática incentivada por toda a equipe de saúde.

Destacamos as seguintes vantagens para o pessoal hospitalar, quando a mãe é envolvida no cuidado de seu filho hospitalizado: A enfermagem fica com um tempo maior para dedicar-se à assistência daquelas crianças que estão separadas de seus pais e/ou em estados que exijam maior atenção; Observamos uma oportunidade ideal que os pais têm para educar os pais; Verificamos um maior grau de interação entre a equipe e os pais; Para os acadêmicos e a equipe multiprofissional de saúde é notória a interação mãe-filho e, a criança como paciente em um ambiente mais real sendo uma oportunidade dos pais interatuam ajudando, ensinando e dando apoio à criança, promovendo assim a saúde mental no ambiente hospitalar.

A presença da mãe é de grande valor para a enfermagem, tanto na identificação das necessidades da criança como na decisão da maneira mais adequada de atendê-las.

Sabemos também que a criança não sai do hospital com a cura da doença. O preparo da alta com orientações à família proporciona a continuidade dos cuidados no domicílio. Portanto:

É preciso que trabalhos de pesquisa sejam desenvolvidos para que possamos cada dia mais aprimorar a assistência aos hospitalizados com seriedade, atendendo suas reais necessidades.

Podemos dizer que sempre se faz necessário o aprimoramento da equipe de enfermagem não só como técnicos, mas, sobretudo, como pessoas que se comunicam, às vezes num plano de grande empatia com os pacientes.

O preparo profissional da enfermagem deveria incluir, necessariamente, treinos de ajustamento pessoal e vivências grupais. Não só as escolas deveriam se preocupar com estes aspectos, mas as próprias instituições hospitalares, nos seus programas de formação permanente, deveriam incluir, sistematicamente, estudos e vivências terapêuticas de personalidade.

O nível de aspiração da equipe de enfermagem se situa um pouco além da rotina diária. Como pessoas que emergem da sociedade comum trazem condicionamentos e esperanças de vida qualitativa e pretendem, junto com o paciente e seus familiares, construir um mundo mais saudável e condizente com os direitos da pessoa humana.

Estas reflexões pretendem revisar um pouco a prática da enfermagem e lembrar que, segundo Dra. Wanda de Aguiar Horta, o enfermeiro é gente, cuidando de gente.

Apesar da participação dos pais serem um grande avanço na prática médica, nem todos os hospitais adotaram esta prática, pois a inclusão dos pais na enfermaria não é uma questão simples, uma vez que implica na reorganização do trabalho em nível teórico e prático.

Portanto, é importante o redirecionamento da nossa prática, através da assistência, do ensino e da pesquisa, permeando-a pelo entendimento da enfermagem enquanto trabalho. Isto se traduz em uma forma objetiva de estar refletindo sobre a profissão, afastando a postura que até menos de duas décadas atrás era de total conformismo e aceitação de imposições, incluindo-se aí as condições de trabalho.

Este posicionamento não é freqüente porque as profissões da saúde (principalmente a medicina) são tomadas como desvinculadas do mundo do trabalho que obedece às leis sociais de necessidades, de carecimento, e esta desvinculação as coloca acima e além do mundo do trabalho, exaltando suas qualidades de verdade, de ciência, de dedicação, de bem e de autonomia.

O compromisso com a pessoa que sofre pode ter as mais diversas motivações, assim como o compromisso com os cuidadores e destes entre si.

Humanizar a assistência hospitalar é dar lugar não só à palavra do usuário como também à palavra do profissional de saúde, de forma que tanto um quanto outro possam fazer parte desse diálogo.

A assistência prestada à criança na Unidade Pediátrica perpassa por um atendimento que vai além do desenvolvimento de atividades técnicas, mas envolve um sentimento de dedicação ao outro, permeado por características do cuidar, como: tocar, conversar, apoiar, informar, dentre outras.

Por meio dessa assistência, o cuidador e o ser cuidado são capazes de se relacionarem através de um processo interativo, no qual compartilham, trocam experiências e resgatam a humanidade existente em cada um. Isto mostra que o cuidador busca atender ao outro de maneira mais humana, buscando conhecer as possibilidades de ajudá-lo, o que é considerado como uma forma de contribuir para a recuperação, ou a aceitação e a adaptação à experiência que vivenciam.

Permanecer ao lado do cliente/usuário nos momentos em que ele não consegue ver os fatos com clareza; ajudá-lo a tomar suas próprias decisões e reconhecer suas limitações; saber ouvir, mesmo que esta comunicação não ocorra de maneira verbal; ser sensível aos sentimentos e às necessidades do cliente/usuário são maneiras encontradas pelos profissionais a fim de prestarem uma assistência mais humanizada.

A presença da mãe na Unidade de Pediatria, como um elo de apoio e ligação familiar, apresenta-se como uma forma de humanizar a assistência, pois, mesmo com o filho internado, continua sendo uma cuidadora, papel que cabe à mulher desde o início da humanidade. Nessa situação, ela assume realmente esse papel e compartilha da evolução da criança e é vista não só como cuidadora, mas também como alguém que inspira cuidado. Assim, cabe ao profissional cuidar dessa mãe, oferecendo-lhe um suporte emocional. Dessa forma, estaremos promovendo uma relação harmoniosa entre o profissional, o cliente/usuário e a família.

À medida que a mãe encontra seu espaço no contexto hospitalar, torna-se co-participante no processo de cuidar, surgindo daí uma cumplicidade capaz de gerar uma relação harmoniosa que poderá contribuir para a recuperação do filho, garantindo não só a ele, mas também a toda a família, um atendimento digno e humanizado.

Se a mãe tem um “acompanhamento exato”, ambas (mãe e criança) ficam mais “tranqüilas”, uma vez que, conseqüentemente, a mãe consegue transmitir essa “tranqüilidade para a criança”. Então, a presença da mãe junto à criança hospitalizada possibilita o compartilhar, o somar e o dividir cuidados para a recuperação do filho.

A presença da mãe requisita um olhar diferenciado por parte da equipe de saúde. É preciso questioná-la sobre suas dúvidas, observar seu comportamento e suas reações, entender suas emoções. Então, tão importante quanto à presença da mãe é a capacidade do cuidador de perceber suas necessidades. A mãe é essencial no processo de humanização. Excluir a mãe é desperdiçar toda a competência essencial no processo de humanizar e reforçar a postura de fiscalizador desmotivado, quando, na verdade, há toda uma possibilidade de tê-lo como cooperador entusiasmado.

Por ser um ambiente estressante, também não se pode descuidar da equipe. Esta, para executar o que lhe é exigido, além do conhecimento prévio das técnicas e tecnologias utilizadas pelo setor, na tentativa de tratar o cliente/usuário, deve também ter reconhecido o seu lado humano, e, por isso mesmo, ser-lhe fornecidas condições para que o trabalho diário seja executado com humanidade. Reconhece-se que insensibilidade, na realidade, não deixa de ser uma máscara, para que o profissional suporte o dia-a-dia de negociação com o tempo que urge. É o cuidador, apontando a necessidade de ser cuidado para melhor cuidar. Assim, o cuidador só conseguirá prestar uma assistência humanizada através de sua própria humanização.

É necessário conscientizar e sensibilizar os alunos de enfermagem e os profissionais de saúde quanto à necessidade de rever como a assistência tem sido prestada, e se esta tem sido da melhor forma. Só a partir desta conscientização o cliente/usuário passará a ser visto como ser humano.

Embora, não acreditemos nas grandes e definitivas mudanças, cremos que pequenas transformações poderão ocorrer no fazer cotidiano. Acreditamos que este estudo poderá dar continuidade a outros que buscam uma maneira mais humana e digna de assistir à criança hospitalizada e/ou atendida na Unidade de Emergência.

A inclusão da mãe no cuidado à criança durante a internação hospitalar é comprovadamente benéfica a esta, pois, durante a hospitalização do filho, os pais procuram formas de atenuar suas necessidades físicas, centradas na terapêutica, mas, também, atentos ao seu bem estar emocional.

Há necessidade de se aprender a manusear a doença e a internação, diminuindo o trauma psicológico da criança, bem como de ajudar a criança a expressar seus sentimentos e a encontrar força para enfrentar a doença.

A equipe de enfermagem da Unidade de Pediatria é, freqüentemente, desafiada em seus esforços de aliviar as dores e confortar as crianças com suas doenças. O enfermeiro tem em vista melhorar as condições de vida das crianças, com afetividade transmitida numa relação de reciprocidade entre esses profissionais e as crianças, comprometendo as mães e/ou familiares durante a realização dos cuidados, cuja preocupação primordial está centrada na possibilidade de minimizar o sofrimento.

O cuidar da criança inclui muito mais que o aspecto biológico do processo saúde-doença transcendendo a sintomatologia das enfermidades, englobando todo contexto familiar e social, orientando pai e mãe e os incluindo na própria ação de cuidar.

A capacitação dos profissionais favorece o desenvolvimento e promove as condições para que eles realizem uma assistência de enfermagem de qualidade dentro das possibilidades encontradas. Assim, formação profissional seria um caminho trilhado continuamente. O profissional nunca estará num momento de completude. Supondo-se que o conhecimento é sempre acrescido de novos saberes, a formação será um movimento permanente, não podendo constituir-se como algo acabado e completo. Dentro desse princípio, a formação profissional será então um caminho a ser trilhado por toda a vida.

Diante do exposto, podemos observar que a área pediátrica na enfermagem vem sendo alvo de uma série de pesquisas, objetivando a melhoria na atuação da assistência à criança hospitalizada.

Diversas transformações já foram realizadas e outras ainda se encontram neste processo rumo à melhoria, mas, com a maior clareza, pode-se perceber que ainda há muito a ser feito e a base dessas transformações certamente se encontra dentro de cada profissional, que possui a consciência desta necessidade de mudança, e em suas mãos a autoridade para a sua efetivação.

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